terça-feira, 17 de maio de 2011

O governo da Líbia e o pensamento maquiavélico

No Oriente Médio e na África, os árabes encontraram força na voz contrária aos governos opressores e à situação econômica precária, com inflação e desemprego.

Inspirados nas revoluções ocorridas na Tunísia e no Egito, que derrubaram os ditadores Zine El Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak, respectivamente, a população líbia foi às ruas pedir a saída de Gaddafi.

Em reação aos protestos o ditador iniciou um massacre contra seu próprio povo, com um saldo de milhares de mortos, feridos e refugiados. Diante do cenário semelhante ao de uma guerra civil, as fronteiras líbias viveram uma situação de iminência crise humanitária. Foi a maior repressão entre todas as revoltas que ocorreram no mundo árabe.

Pareceu tão inusitado, que chocou e escandalizou o mundo. Um governante que antes parecia tão adorado por diversos países, como os Estados Unidos, virou em segundos, inimigo mundial ao iniciar essa repressão violenta aos manifestantes populares dentro do seu território.

Há no entanto uma faceta interessante dentro do governo autoritário desse militar. Se pensarmos em termos ideológicos, percebe-se ser capaz de traçar um panorama entre as ações políticas de Muammar e a ideologia política de Nicolau Maquiavel que escreveu sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser.

A repressão realizada por Gaddafi pode ser relacionada com algumas idéias de Maquiavel, como a de que um príncipe não deve medir esforços, nem hesitar se o que estiver em jogo for a integridade nacional; não importa o que o governante faça em seus domínios, desde que seja para manter-se com autoridade. E também que a conduta do príncipe (governante) deve ser de acordo com a situação. (Se a ocasião exigir que mate alguém, assim o deve fazer).

Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, chefe de Estado da Líbia desde 1969, é autor do Livro Verde, um panfleto sobre poder popular e "democracia islâmica" que ele chamou de "a máquina de governar", o qual é utilizado como Constituição no país. Iniciou os estudos em uma escola rígida de regime interno e ingressou na carreira militar. Entre suas medidas peculiares, está a constituição de uma força militar presidencial formada por cerca de 3 mil homens. Ele é um presidente ditador há mais de 40 anos.

O Livro Verde, redigido por Gaddafi, cujos princípios deveriam nortear o destino de seu povo, destaca a ideia maquiavélica que defende que o príncipe deve parecer ao povo como uma pessoa com inúmeras qualidades mesmo que não as tenha. Isso ocorre visto que, Gaddafi prometeu, num contexto de forte exacerbação nacionalista, reunir sob seu manto toda a nação árabe. Armou seu povo, oferecendo cursos de treinamento militar em escolas, empresas e universidades.

Além disso, criou a Wics (World Islamic Call Society), em 1972. A Wics tem por objetivo a da'wa, ou seja, o anúncio islâmico ao mundo, unindo atividades religiosas e ações humanitárias, econômicas e educativas para alcançar essa finalidade. Nos trinta anos de sua existência, a Wics já distribuiu milhões de cópias do Alcorão, financiou a construção de dezenas de mesquitas e centros islâmicos. Construiu também hospitais e ambulatórios, e mantém, com muitas bolsas de estudos, estudantes nos cursos de medicina, engenharia e economia das universidades líbias, estritamente reservadas para jovens muçulmanos africanos e asiáticos. Todas essas numerosas iniciativas humanitárias, científicas e de promoção humana não devem, porém, enganar: a verdadeira intenção da Wics é a islamização e arabização dos países africanos.

Em suma, devido ao fato de as medidas tomadas por Gaddafi serem autoritárias e por terem em vista sua manutenção no poder, ignorando a moral e a ética, é possível relacionar sua conduta às ideias de Maquiavel.

Um comentário:

  1. Achei interessante a escolha do fato histórico. Porém achei forçoso usar a ciência política de Maquiavel para justificar os feitos bastante imorais de Gaddafi, que terminou numa posição de um governante não virtuoso. É certo dizer que para Maquiavel a política tem uma moral própria e que, portanto, a ética muitas vezes não cabe nas decisões de um príncipe. Entretanto, é relevante lembrar que um príncipe governa numa situação em que os conflitos são constantes e seu objetivo máximo é manter a ordem. Dizer que Gaddafi com suas atitudes déspotas e tiranas estava tentando manter a ordem pode ser certo, mas essa conduta dele não fez a desordem se agravar? Gaddafi não foi, portanto, virtuoso. Por fim, algo digno de se ressaltar é que o príncipe deve evitar ao máximo ser odiado. A tentativa de manutenção da ordem a qualquer custo de Gaddafi ocasionou justamente com que ele fosse odiado.

    Olivia Prada Wey

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