quinta-feira, 26 de maio de 2011

Por que servimos?

Eis uma questão que já foi objeto de reflexão de diversos pensadores. Para nós, homens, é impossível considerar a servidão como parte da nossa natureza. O desejo dos homens é sempre de permanecer livre. Todo homem moderno sonha, por exemplo, em ser seu próprio chefe, passando a ter liberdade para fazer aquilo que bem quiser sem dever explicações para qualquer outra pessoa. Assim, entende-se que os homens servem por imposição.

Hobbes afirma que faz parte do direito natural do homem a liberdade irrestrita. No entanto, para ele, é impossível a vida em uma sociedade em que todos a possuam, pois os homens estão constantemente em busca de honra e glória e, por isso, competem entre si. Essa situação de guerra de todos contra todos é insuportável. E é por isso que os homens renunciam ao seu direito à liberdade a um soberano que passa a controlar as relações e que tem todos os poderes, obrigando todos os homens a lhe servirem. Assim, entende-se que, do ponto de vista hobbesiano, a servidão é necessária. Para ele a liberdade só existe em Estado de Natureza.

Rousseau afirma que “o homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se aprisionado”. Apesar de concordarem em relação ao fato de o contrato social limitar a liberdade natural dos indivíduos, Rousseau tem um ponto de vista diferente de Hobbes no que se refere à guerra. Ele se opõe claramente ao defender que no Estado de Natureza todos os homens são iguais e portanto não há tendência à guerra, como acredita Hobbes. Rousseau afirma que a guerra é uma consequência da sociedade fabricada pelo próprio homem que passa a lutar pela sua autopreservação, que é, segundo ele, um instinto humano. Ele diz que a guerra de todos contra todos visualizada por Hobbes não existe. O que existem são conflitos distintos, que tendem a serem resolvidos, mas não há um estado de guerra generalizado.

Em suma, Rousseau afirma que os homens servem por hábito e, sendo assim, a servidão não é necessária. Para ele, a desigualdade é uma criação do homem. Ele acredita que deve-se a liberdade civil por meio da educação e da filosofia. Só assim o povo será capaz de criar as suas próprias leis, o que é um ato de liberdade, que pode o libertar da servidão voluntária. Por outro lado, de acordo com Hobbes, a servidão voluntária existe ao passo que é insuportável viver em estado de guerra com o constante sentimento de medo e tensão na situação em que há liberdade irrestrita, devido à insegurança na medida em que todos são livres para matar quem quiserem.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O governo da Líbia e o pensamento maquiavélico

No Oriente Médio e na África, os árabes encontraram força na voz contrária aos governos opressores e à situação econômica precária, com inflação e desemprego.

Inspirados nas revoluções ocorridas na Tunísia e no Egito, que derrubaram os ditadores Zine El Abidine Ben Ali e Hosni Mubarak, respectivamente, a população líbia foi às ruas pedir a saída de Gaddafi.

Em reação aos protestos o ditador iniciou um massacre contra seu próprio povo, com um saldo de milhares de mortos, feridos e refugiados. Diante do cenário semelhante ao de uma guerra civil, as fronteiras líbias viveram uma situação de iminência crise humanitária. Foi a maior repressão entre todas as revoltas que ocorreram no mundo árabe.

Pareceu tão inusitado, que chocou e escandalizou o mundo. Um governante que antes parecia tão adorado por diversos países, como os Estados Unidos, virou em segundos, inimigo mundial ao iniciar essa repressão violenta aos manifestantes populares dentro do seu território.

Há no entanto uma faceta interessante dentro do governo autoritário desse militar. Se pensarmos em termos ideológicos, percebe-se ser capaz de traçar um panorama entre as ações políticas de Muammar e a ideologia política de Nicolau Maquiavel que escreveu sobre o Estado e o governo como realmente são e não como deveriam ser.

A repressão realizada por Gaddafi pode ser relacionada com algumas idéias de Maquiavel, como a de que um príncipe não deve medir esforços, nem hesitar se o que estiver em jogo for a integridade nacional; não importa o que o governante faça em seus domínios, desde que seja para manter-se com autoridade. E também que a conduta do príncipe (governante) deve ser de acordo com a situação. (Se a ocasião exigir que mate alguém, assim o deve fazer).

Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, chefe de Estado da Líbia desde 1969, é autor do Livro Verde, um panfleto sobre poder popular e "democracia islâmica" que ele chamou de "a máquina de governar", o qual é utilizado como Constituição no país. Iniciou os estudos em uma escola rígida de regime interno e ingressou na carreira militar. Entre suas medidas peculiares, está a constituição de uma força militar presidencial formada por cerca de 3 mil homens. Ele é um presidente ditador há mais de 40 anos.

O Livro Verde, redigido por Gaddafi, cujos princípios deveriam nortear o destino de seu povo, destaca a ideia maquiavélica que defende que o príncipe deve parecer ao povo como uma pessoa com inúmeras qualidades mesmo que não as tenha. Isso ocorre visto que, Gaddafi prometeu, num contexto de forte exacerbação nacionalista, reunir sob seu manto toda a nação árabe. Armou seu povo, oferecendo cursos de treinamento militar em escolas, empresas e universidades.

Além disso, criou a Wics (World Islamic Call Society), em 1972. A Wics tem por objetivo a da'wa, ou seja, o anúncio islâmico ao mundo, unindo atividades religiosas e ações humanitárias, econômicas e educativas para alcançar essa finalidade. Nos trinta anos de sua existência, a Wics já distribuiu milhões de cópias do Alcorão, financiou a construção de dezenas de mesquitas e centros islâmicos. Construiu também hospitais e ambulatórios, e mantém, com muitas bolsas de estudos, estudantes nos cursos de medicina, engenharia e economia das universidades líbias, estritamente reservadas para jovens muçulmanos africanos e asiáticos. Todas essas numerosas iniciativas humanitárias, científicas e de promoção humana não devem, porém, enganar: a verdadeira intenção da Wics é a islamização e arabização dos países africanos.

Em suma, devido ao fato de as medidas tomadas por Gaddafi serem autoritárias e por terem em vista sua manutenção no poder, ignorando a moral e a ética, é possível relacionar sua conduta às ideias de Maquiavel.